Em 30 de janeiro de 2025, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA aprovou o medicamento Journavx™ (suzetrigina), um analgésico não opioide de primeira classe para tratar dor moderada a severa em pacientes adultos.1 A diretora interina do Center for Drug Evaluation and Research da FDA, Jacqueline Corrigan-Curay, MD, JD, chamou a aprovação de “um marco importante de saúde pública no manejo da dor aguda… uma oportunidade de mitigar certos riscos associados ao uso de um opioide para dor e dar aos pacientes outra opção de tratamento”. A suzetrigina é o primeiro medicamento aprovado em uma nova classe de medicamentos para controle da dor. Apesar da aprovação de diversos agentes analgésicos ao longo do século XX, mais da metade dos pacientes cirúrgicos ainda apresenta dor pós-operatória moderada a severa.2
A suzetrigina, um inibidor seletivo da sinalização da dor não opioide que não causa dependência química, tem potencial para ser o primeiro tratamento para dor aguda moderada a severa, pertencente a uma nova classe farmacológica, em mais de duas décadas. A suzetrigina inibe o NaV1.8 ao se ligar ao VSD2, segundo domínio sensor de voltagem da proteína (VSD2), estabilizando o estado fechado do canal. Esse novo mecanismo alostérico resulta na inibição tônica do NaV1.8 e reduz os sinais de dor no neurônio sensorial primário humano do gânglio da raiz dorsal (dorsal-root ganglion, DRG). Ao bloquear sinais de dor nas fibras C nociceptivas antes que cheguem ao cérebro, a suzetrigina oferece uma alternativa aos opioides sem causar dependência química nem toxicidade a órgãos.
Dor aguda, neuropática ou inflamatória é causada pelo disparo excessivo dos neurônios do gânglio da raiz dorsal ou do gânglio do trigêmeo. A identificação de múltiplos genes de canais de sódio levou à busca por canais de sódio “periféricos” que são essenciais para o disparo dos neurônios do DRG, mas não estão envolvidos no cérebro ou no coração. Três desses canais, NaV1.7, NaV1.8 e NaV1.9, regulam a sinalização periférica da dor nas fibras C nociceptivas. Desses três canais, NaV1.8 produz mais de 70% da corrente, permitindo a propagação do potencial de ação. A suzetrigina inibe a despolarização nos neurônios periféricos de sinalização da dor sem afetar o cérebro ou o coração, reduzindo a dor com poucos efeitos colaterais no sistema nervoso central (SNC) ou cardíacos. Estudos in vitro mostram que a suzetrigina tem seletividade >31.000 vezes maior para os canais Nav 1,8, ao contrário dos bloqueadores de canais de sódio não seletivos.3 A suzetrigina atua de modo específico e exclusivo nos receptores de NaV1.8, evitando efeitos colaterais desagradáveis (Figura 1).4 Moléculas futuras de NaV1.8 podem oferecer potencial analgésico ainda maior, aguardando estudos clínicos (Figura 2).

Figura 1: Canais de sódio voltagem-dependentes associados à propagação de sinais de dor. Usado com permissão da Vertex Pharmaceuticals.
Para testar a segurança e a eficácia dos medicamentos, a Vertex Pharmaceuticals (Boston, MA) realizou dois grandes ensaios clínicos randomizados: um estudo de abdominoplastia que incluiu 1.118 pacientes e um estudo de bunionectomia (correção de hálux valgo) com 1.073 pacientes. Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos em três grupos: placebo, combinação de paracetamol e hidrocodona ou suzetrigina. A dose de ataque recomendada de suzetrigina é de 100 mg por via oral, seguida de 50 mg a cada 12 horas.1 Além de receber o tratamento randomizado, todos os participantes dos ensaios que experimentaram dor irruptiva puderam usar ibuprofeno conforme necessário para analgesia “de resgate”. Ambos os ensaios demonstraram uma redução estatisticamente significativa e superior da dor com a suzetrigina em comparação com placebo. A superioridade em relação à combinação de hidrocodona 5 mg/paracetamol 325 mg não foi demonstrada. Porém, análises de um respondente em vários momentos (12h, 24h e 48h) mostraram reduções semelhantes de 30/50/70% na Escala numérica de avaliação da dor da suzetrigina versus hidrocodona 5 mg/paracetamol 325 mg. Os efeitos colaterais da suzetrigina relatados pelos pacientes foram semelhantes aos dos que tomaram placebo. Pode haver um risco maior de reações adversas com o uso concomitante de inibidores moderados a fortes do CYP3A. Também pode haver risco de interações medicamentosas com certos contraceptivos hormonais, e pacientes que tomam suzetrigina devem usar contraceptivos não hormonais (como preservativos) ou usar contraceptivos alternativos contendo levonorgestrel e noretindrona.
Pacientes com insuficiência hepática moderada a grave podem apresentar maior exposição sistêmica à suzetrigina e seus metabólitos ativos. A suzetrigina deve ser evitada em pacientes com insuficiência renal de eGFR <15 ml/min.
As reações adversas mais comuns nos participantes que receberam suzetrigina foram coceira, espasmos musculares, aumento do nível sanguíneo de creatinofosfoquinase e erupção cutânea. A suzetrigina foi geralmente segura e bem tolerada, com menor incidência de eventos adversos do que o placebo e a combinação de paracetamol/hidrocodona. Além disso, os pacientes devem evitar alimentos ou bebidas que contenham toranja ao tomar suzetrigina.
Inibidores dos canais de sódio podem conseguir suprir a necessidade não atendida no manejo da dor perioperatória com os analgésicos não opioides atuais. O controle da dor pós-operatória é um componente vital para a recuperação adequada dos pacientes cirúrgicos. Um componente importante de programas bem-sucedidos, como os protocolos de Recuperação Aprimorada Após a Cirurgia (Enhanced Recovery After Surgery, ERAS), é otimizar o controle da dor durante todo o período perioperatório. Isso começa com o ataque pré-operatório de paracetamol e ibuprofeno, que atuam sinergicamente com outros analgésicos. No intraoperatório, a dor pós-operatória é minimizada por meio de cateteres e de bloqueios anestésicos regionais. A suzetrigina parece ser um medicamento eficaz, seguro e que não causa dependência química que pode oferecer novas opções para pacientes com alto risco de eventos adversos relacionados a opioides ou quando anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são contraindicados, sendo uma alternativa significativa aos opiáceos, de acordo com o protocolo ERAS.
A FDA aprovou a suzetrigina em 30 de janeiro de 2025 para o tratamento da dor moderada a severa por via oral. A suzetrigina é um bloqueador seletivo dos canais de sódio, sendo o primeiro bloqueador dos canais de sódio aprovado nos Estados Unidos para essa indicação e o primeiro medicamento não opioide aprovado para o tratamento da dor em mais de 25 anos. A suzetrigina é um bloqueador seletivo do canal de sódio voltagem-dependente NaV1.8, que é expresso nos neurônios do gânglio da raiz dorsal periférica. A suzetrigina não tem potencial de abuso nem toxicidade de órgãos conhecida; portanto, é uma alternativa razoável aos opiáceos ou AINEs.
Paul Lee, MD, é diretor de anestesia regional e professor clínico associado na Keck School of Medicine da University of Southern California.
Michael Kim, DO, é diretor médico sênior de operações e professor clínico associado na Keck School of Medicine da University of Southern California.
Joseph Szokol, MD, é professor clínico na Keck School of Medicine da University of Southern California.
Michael Bottros, MD, é diretor médico de serviços de dor e professor clínico associado na Keck School of Medicine da University of Southern California.
Os autores não apresentam conflitos de interesses.
REFERÊNCIAS
- FDA approves novel non-opioid treatment for moderate to severe acute pain—press release: January 30, 2025. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-novel-non-opioid-treatment-moderate-severe-acute-pain. Accessed March 28, 2025.
- Van Boekel R, Warle M, Nielsen R, et al. Relationship between postoperative pain and overall 30-day complications in a broad surgical population: an observational study. Annals of Surgery. 2019:269:856–865. PMID: 29135493.
- Osteen JD, Immani S, Tapley TL, et al. Pharmacology and mechanism of action of suzetrigine, a potent and selective NaV1.8 pain signal inhibitor for the treatment of moderate to severe pain. Pain Ther. 2025;14:655–674. PMID: 39775738.
- Waxman SG. Targeting a peripheral sodium channel to treat pain. N Engl J Med. 2023;389:466–469. PMID: 37530829.
