Dados recentes continuam a confirmar a epidemia de danos evitáveis nos cuidados de saúde nos EUA. Em 2022, o Escritório do Inspetor-Geral do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA divulgou um relatório chamado “Adverse Events in Hospitals: A Quarter of Medicare Patients Experienced Harm in October 2018” (Eventos adversos em hospitais: um quarto dos pacientes do Medicare sofreu danos em outubro de 2018).1 Em 2023, o New England Journal of Medicine publicou que “foram identificados eventos adversos em quase uma em cada quatro internações”, com eventos adversos a medicamentos representando 39,0% de todos os eventos, ficando eventos de procedimentos cirúrgicos em segundo lugar, com 30,4%.2 Claramente, temos um trabalho a fazer no domínio perioperatório.
Os danos evitáveis não apenas têm um alto custo humano, como também causam um estresse financeiro e de recursos em nosso sistema de saúde. De acordo com um relatório recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), “o custo direto do tratamento de pacientes que foram prejudicados durante os cuidados se aproxima de 13% dos gastos com saúde”, sendo a maioria desses eventos considerada evitável.3 Um último impacto adverso do dano é a perda de confiança dos pacientes nos sistemas de saúde. A confiança tem um impacto claro na saúde e nos resultados dos cuidados de saúde. Uma publicação recente relata que, entre abril de 2020 e janeiro de 2024, a confiança em médicos e hospitais diminuiu de 71,5% para 40,1%.4
A Anesthesia Patient Safety Foundation (APSF) aborda o desafio de danos evitáveis com relacionamentos colaborativos, percebendo que realizamos mais juntos do que separados. Desde o início, a APSF incluiu líderes da indústria, agências reguladoras, outras especialidades e provedores de saúde e empresas médico-legais e de seguros. Essa ampla união de forças permitiu que a APSF servisse como um agregador de colaboradores, cada um trabalhando em conjunto para resolver questões de segurança do paciente que podem ter impactos devastadores sobre os pacientes, suas famílias e os profissionais de saúde.
Embora a APSF tenha se concentrado em nossa visão de que “ninguém será prejudicado pelos cuidados anestésicos”, entendemos que, como os fios de uma corda forte, não devemos separar segurança da qualidade. O principal objetivo dos cuidados de saúde de qualidade é garantir que os pacientes recebam o melhor atendimento possível, alcancem os melhores resultados e atinjam ou superem suas metas pessoais de saúde. Os cuidados de saúde e nossos pacientes não obtêm resultados de qualidade sem segurança. Nossa visão deve estar enraizada em toda a experiência do paciente durante todo o processo perioperatório e além. Em suma, aspiramos a um sistema sem danos evitáveis, retornando os pacientes à sua linha de base ou a um melhor estado de saúde física, cognitiva e psicológica.
NOSSAS ATIVIDADES
A APSF atua como uma forte defensora da segurança perioperatória e continuamos a trabalhar nas ações pelas quais transformamos ideias em ação e ação em resultados. Elas incluem pesquisa, educação, nosso Boletim informativo, outros veículos de comunicação (por exemplo, redes sociais, site), colaboração com outras partes interessadas na segurança do paciente e defesa da nossa missão. Com recursos limitados, continuaremos a exercer estrategicamente essas ações para progredir continuamente na luta contra danos evitáveis. Quero destacar apenas algumas de nossas muitas atividades.
- Estabelecer as prioridades da segurança perioperatória de pacientes. A APSF busca ampla contribuição e estabeleceu uma lista das principais prioridades de segurança perioperatória do paciente. Consulte essa lista em https://www.apsf.org/patient-safety-priorities/. Em geral, as principais atividades e iniciativas da APSF focam essas questões prioritárias, que incluem:
- Cultura de segurança, trabalho em equipe e segurança do médico
- Deterioração clínica
- Anestesia fora da sala de cirurgia
- Saúde cerebral perioperatória
- Danos relacionados a opioides
- Segurança de medicamentos
- Doenças infecciosas
- Manejo das vias aéreas
- Conferências de consenso: Todos os anos, a APSF organiza uma Conferência de Consenso de Stoelting orientada para uma das questões prioritárias. Essas conferências reúnem defensores da segurança do paciente, profissionais de anestesia e cirurgia e líderes regulatórios e da indústria para abordar tópicos específicos. Exemplos de conferências anteriores podem ser encontrados em https://www.apsf.org/past-apsf-consensus-conferences-and-recommendations. A conferência de 2024 foi intitulada “Transformando o Cuidado Anestésico: Um aprofundamento em erros de medicação e segurança de opioides.” Os erros de medicação continuam a representar uma alta porcentagem do total de erros na medicina perioperatória. A conferência de 2024 foi excepcional. Ela foi realizada em Boston em comemoração ao encontro ocorrido há 40 anos (https://www.apsf.org/about-apsf/apsf-history/) que resultou na formação da APSF em 1985. As inscrições para a conferência se esgotaram, com mais de 200 pessoas inscritas para participação virtual. As palestras estão disponíveis on-line em https://www.apsf.org/event/apsf-stoelting-conference-2024/. Um manuscrito com recomendações será submetido para publicação.
- A conferência do próximo ano será realizada em Chicago nos dias 3 e 4 de setembro e será intitulada “Transformando o cuidado materno: Inovações e colaborações para reduzir a mortalidade“.
- Nosso Comitê de Tecnologia criou uma iniciativa de educação tecnológica, que pode ser acessada no site da APSF. Duas atividades de aprendizagem estão disponíveis gratuitamente e incluem 1) Anestesia de baixo fluxo e 2) Monitoramento neuromuscular quantitativo. Um curso sobre desfibrilação externa manual, cardioversão e estimulação será lançado em breve.
- Há uma nova página dedicada à prevenção e ao tratamento de incêndios cirúrgicos, Incluindo um vídeo antigo de cerca de 18 minutos e um novo vídeo curto de 5 a 6 minutos disponível em vários idiomas. https://www.apsf.org/videos/preventing-surgical-fires/
- Uma nova iniciativa de envolvimento do paciente, na qual estamos trabalhando há mais de dois anos e que foi lançada no final do ano passado. De acordo com um relatório de 2023 da OCDE sobre o envolvimento do paciente, “as perspectivas dos pacientes e dos cidadãos e seu envolvimento ativo são essenciais para tornar os sistemas de saúde mais seguros e centrados nas pessoas e são fundamentais para coprojetar serviços de saúde e coproduzir boa saúde com profissionais de saúde e estabelecer confiança”. Já é hora de haver envolvimento do paciente nos cuidados de saúde nos EUA. Temos um novo site desenvolvido com contribuições significativas do paciente, muito utilizado até o momento. Pretendemos desenvolver esse site com um menu de opções dos problemas e riscos específicos do paciente. https://www.apsf.org/patient-guide/
Temos um grupo de voluntários profundamente comprometidos que, com certeza, vencerá os desafios dos cuidados de saúde que ocorrerão no espaço perioperatório na próxima década e buscará soluções para melhorar a segurança do paciente e, em última análise, a qualidade dos resultados. Contamos com seu apoio financeiro para atingir nossos objetivos. Usaremos nossos recursos com sabedoria para garantir que a anestesiologia continue sendo líder em segurança perioperatória para o benefício dos pacientes e dos profissionais. Nós, da APSF, seremos proativos em continuar nosso trabalho para concretizar nossa visão “de que ninguém será prejudicado pelos cuidados anestésicos”. É, de fato, uma confiança sagrada que temos com nossos pacientes, e nosso objetivo é promover a base de confiança sobre a qual nossa especialidade foi construída.
Dan Cole, MD, é professor de anestesiologia clínica no Departamento de Anestesiologia e Medicina Perioperatória David Geffen School of Medicine, University of California, Los Angeles. Ele também é o atual presidente da Anesthesia Patient Safety Foundation.
O autor não apresenta conflitos de interesse.
REFERÊNCIAS
- The HHS adverse events report. https://oig.hhs.gov/documents/evaluation/2997/OEI-06-18-00400-Complete%20Report.pdf. Accessed December 1, 2024.
- Bates DW, Levine DM, Salmasian H, et al. The safety of inpatient health care. N Engl J Med. 2023;388:142–153. PMID: 36630622.
- Slawomirski L, Klazinga N. “The economics of patient safety: From analysis to action.” OECD Health Working Papers, No. 145, OECD Publishing, Paris, 2022. https://doi.org/10.1787/761f2da8-en.
- Perlis RH, Ognyanova K, Uslu A, et al. Trust in physicians and hospitals during the COVID-19 pandemic in a 50-state survey of US adults. JAMA Netw Open. 2024;7:e2424984. PMID: 39083270.
