Erros da medicação perioperatória pediátrica

by Ying Eva Lu-Boettcher, MD; Rahul Koka, MD

outubro 1, 2024

DEFINIÇÃO E TAXAS

Um erro de medicação é “uma falha no processo de tratamento que leva a, ou tem o potencial de levar a, danos ao paciente”.1 Em geral, os erros de medicação perioperatória são subnotificados. É difícil quantificar com precisão as taxas de erros de medicação, pois poucos estudos observaram os profissionais de anestesia durante o processo de pedido e administração de medicamentos. Em um grande estudo institucional realizado com pacientes adultos, a incidência de erros de medicação autorrelatados foi de 0,004% (10/280.488), enquanto a incidência de observação direta foi de 5,3% (193/3.671), sugerindo que apenas erros graves de medicação com sequelas são relatados.2 Na anestesia pediátrica, a incidência estimada de erros de medicação usando autorrelatos está entre 0,01% (276/2.316.635) e 1,92% (37/1.925).3-4,7 Os pacientes pediátricos têm grandes variações no peso corporal, o que resulta em alta variabilidade nos cálculos de dosagem. Isso faz com que as crianças corram um risco maior de erros de medicação, bem como um risco maior de danos causados por esses erros, em comparação com os pacientes adultos.6

CAUSAS COMUNS QUE LEVAM AO ERRO DE MEDICAÇÃO

Os profissionais de anestesia trabalham em condições de alta intensidade, nas quais várias doses e classes de medicamentos são administradas em cenários clínicos em um ritmo acelerado. Esse ambiente predispõe os profissionais de anestesia a erros de medicação. Além disso, eles assumem rotineiramente a responsabilidade por todo o processo de administração de medicamentos, incluindo a prescrição, a preparação e a administração. Existem perigos em todo esse processo (Figura 1).

Figura 1: Erros primários de medicação pediátrica no ambiente perioperatório durante diferentes fases de manuseio: preparação, prescrição ou administração. Adaptado e modificado com a permissão de Lobaugh LMY et al. Anesth Analg. 2017; 125:936–942.7

Figura 1: Erros primários de medicação pediátrica no ambiente perioperatório durante diferentes fases de manuseio: preparação, prescrição ou administração. Adaptado e modificado com a permissão de Lobaugh LMY et al. Anesth Analg. 2017; 125:936–942.7

A Wake Up Safe, uma colaboração nacional de qualidade em anestesiologia pediátrica, descobriu que os sedativos e hipnóticos/opioides são os medicamentos que mais resultam em erro.

Também foi constatado que a maior incidência de erros de medicação ocorreu durante a administração (N = 179), seguida pela prescrição (conhecimento incorreto da dose, N = 67) e depois pela preparação (N = 30) (Figura 2), página seguinte. O tipo de erro mais comum durante a administração foi a dose errada (N = 84), seguida pela troca de seringas (administração acidental da seringa errada, N = 49). Cinquenta e sete incidentes (21%) de erros de medicação relatados envolveram infusões de medicamentos em vez de administrações em bólus. Vale ressaltar que quase todos (97%) os erros de medicação foram considerados evitáveis.7

Figura 2: Fase de manuseio e incidência de erros de medicação perioperatória em pacientes pediátricos: administração, prescrição e preparação.<br /><br />
Adaptado e modificado com a permissão de Lobaugh LMY et al. Anesth Analg. 2017; 125:936–942.7

Figura 2: Fase de manuseio e incidência de erros de medicação perioperatória em pacientes pediátricos: administração, prescrição e preparação.

Adaptado e modificado com a permissão de Lobaugh LMY et al. Anesth Analg. 2017; 125:936–942.7

COMO PODEMOS CONTROLAR O RISCO DURANTE A ADMINISTRAÇÃO DE MEDICAMENTOS?

A etapa crítica na administração de medicamentos ocorre quando a seringa é empurrada ou a infusão é iniciada.8 Quando o medicamento chega ao paciente, há a possibilidade de uma mudança imediata e irreversível em sua condição. Esse processo de administração vem com a possibilidade inerente de erros e danos. Algumas intervenções tecnológicas e baseadas em processos podem ajudar a mitigar ou até mesmo eliminar os danos potencialmente causados pelo erro (Tabela 1).

Tabela 1: As intervenções tecnológicas e baseadas em processos reduzem os erros de medicação.

Tabela 1: As intervenções tecnológicas e baseadas em processos reduzem os erros de medicação.

UM FOCO NOS ERROS DE MEDICAÇÃO PEDIÁTRICA:

Para a população pediátrica, devem ser consideradas técnicas específicas de mitigação baseadas em evidências (Figura 3).

Figura 3: Análise de erros de medicação intraoperatória. POC <br /><br />
= Local de atendimento

Figura 3: Análise de erros de medicação intraoperatória. POC

= Local de atendimento

O sistema de organização de medicamentos Anesthesia Medication Template (AMT) é um método formal e padronizado de organização de medicamentos no local de trabalho de anestesia. Essa ferramenta diminui a carga cognitiva e demonstrou facilitar a seleção das seringas corretas no espaço de trabalho de anestesia, bem como a administração correta da dose do medicamento.9 Durante a simulação em um hospital acadêmico pediátrico independente, o uso de um AMT reduziu a incidência de erros gerais de dosagem de medicamentos de 10,4 para 2,4 por 100 administrações de medicamentos. Durante a implementação da fase 2, o uso do AMT reduziu a taxa média mensal de erros que atingiam os pacientes pediátricos de 1,24 para 0,65 erros a cada 1.000 anestesias. Dos erros que atingiram o paciente, o AMT ajudou a reduzir a taxa de trocas de medicamentos, erros de cálculo e de tempo de 0,80 para 0,26 por 1.000 anestesias.9

Outra técnica de mitigação é o uso de seringas pré-preenchidas. Vários grupos de segurança do paciente, incluindo a APSF e a Wake Up Safe, são a favor das seringas pré-preenchidas, que podem fornecer rotulagem padronizada e aprimorada, juntamente com doses de medicamentos prontas para uso.10-12 Essa prática pode mitigar os erros de troca de ampolas/frascos e também pode diminuir o risco de troca de seringas.11 Em um estudo de pesquisa qualitativa de 2016, Vulnerabilidades do Sistema (System Vulnerabilities, SVs) compararam os sistemas de seringas pré-preenchidas e seringas preenchidas pelo profissional. A vulnerabilidade do sistema é definida como uma “atividade ou evento que tem o potencial de reduzir a segurança, a eficiência do fluxo de trabalho do profissional ou aumentar os custos e o desperdício de medicamentos”.12 Foram identificadas mais vulnerabilidades no sistema de seringas preenchidas pelo profissional em comparação com o sistema de seringas pré-preenchidas, incluindo erros devido a caligrafia ilegível e erros devido a embalagens de medicamentos semelhantes.12 Apesar do perfil de segurança, foram publicados relatos de erros de medicação relacionados a seringas pré-preenchidas semelhantes envolvendo fabricantes selecionados. Esses relatórios enfatizam a importância de selecionar produtos farmacêuticos pré-preenchidos que atendam aos padrões estabelecidos pela American Society for Testing and Materials, além de serem visualmente diferenciáveis quando montados para uso.13-14

Uma terceira modalidade é o uso de sistemas de leitura de código de barras no local de atendimento.15-17 Um estudo observacional que investigou a eficácia da implementação da tecnologia de verificação de medicamentos por código de barras em uma população adulta internada sugeriu uma redução de 41% nos erros de dose, via, documentação e administração e uma redução de 51% nos possíveis eventos adversos a medicamentos.15 Em um estudo de 2022 realizado em um hospital infantil acadêmico quaternário, a implementação de um sistema de rotulagem eletrônica demonstrou uma redução de 3,6% na taxa média diária de discrepância de medicamentos. Antes da implementação, a taxa média diária de discrepância de medicação era de 9,7%, diminuindo substancialmente para 6,1% (X21 = 43,9; P < ,0001) pós-implementação.16 As limitações dessas tecnologias incluem a viabilidade do usuário, a conformidade, o custo e a disponibilidade.15-17 A tecnologia, embora possa ser incrivelmente útil, precisa ser usada da maneira para a qual foi projetada para funcionar de forma a mitigar os erros de medicação. Quando funciona fora dos propósitos pretendidos, a tecnologia pode representar um risco. Por exemplo, a leitura de código de barras só funciona bem se os sistemas estiverem vinculados ao prontuário médico eletrônico (PME) e se o código de barras fornecido for registrado adequadamente. Além disso, a utilização da tecnologia de código de barras no local de atendimento exige uma parceria com a farmácia para atualizações do sistema, alterações de rótulos e gerenciamento da falta de medicamentos.

CONCLUSÃO

A observação direta, por meio de estudos publicados, de profissionais que aplicam anestesia em adultos e crianças na sala de cirurgia estima uma taxa de erro de medicação de até 5%.2 O dano causado por erros de medicação é relatado como sendo três vezes maior em pacientes pediátricos do que em adultos. A taxa de eventos adversos de medicamentos é mais alta entre os recém-nascidos. As possíveis estratégias de mitigação de erros de medicação incluem a utilização de seringas pré-preenchidas, apoio às decisões do prontuário médico eletrônico, assistentes de organização de medicamentos e sistemas de leitura de código de barras.

 

Ying Eva Lu-Boettcher, MD, é professora assistente no Departamento de Anestesiologia da University of Wisconsin School of Medicine and Public Health, Madison, WI.

Rahul Koka, MD, é professor assistente de anestesiologia e medicina intensiva na Johns Hopkins University School of Medicine, Baltimore, MD.


Os autores não apresentam conflitos de interesse.


REFERÊNCIAS

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  7. Lobaugh LMY, Martin LD, Schleelein LE, et al. Medication errors in pediatric anesthesia: a report from the Wake Up Safe Quality Improvement Initiative. Anesth Analg. 2017; 125:936–942. PMID: 28742772. PMID: 28742772
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  12. Yang Y, Rivera AJ, Fortier CR, Abernathy JH 3rd. A human factors engineering study of the medication delivery process during an anesthetic: self-filled syringes versus prefilled syringes. Anesthesiology. 2016;124:795–803. PMID: 26845139
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  16. Thomas JJ, Bashqoy F, Brinton JT, et al. Integration of the Codonics Safe Label System® and the Omnicell XT® Anesthesia Workstation into pediatric anesthesia practice: utilizing technology to increase medication labeling compliance and decrease medication discrepancies while maintaining user acceptability. Hosp Pharm. 2022;57 PMID: 35521011
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